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02/02/2012 - 10h50m

Cortejo por ruas do Centro e pedido de perdão marcam centenário do episódio

Documento assinado pelo governador Teotonio Vilela em solenidade com religiosos propõe retratação pelo passado de perseguição e intolerância

Cortejo por ruas do Centro e pedido de perdão marcam centenário do episódio

Agência Alagoas

Sob o som de cantos africanos, o Centro de Maceió foi transformado, nesta terça-feira, 1º de fevereiro de 2012, num grande terreiro a céu aberto. Em cortejo pelo bairro, pais, mães e filhos de santo relembraram os cem anos do sangrento Quebra de Xangô. A ação, que percorreu da Praça Dom Pedro II à Praça Floriano Peixoto, passou por pontos importantes para as religiões africanas e tentou deixar para trás um passado de perseguição e preconceito.

Com a presença de centenas de babalorixás e yalorixás, a caminhada teve o objetivo de marcar a passagem do primeiro centenário do episódio, provocado por uma milícia armada que destruiu os terreiros da capital. Durante todo o trajeto, adeptos do candomblé cantaram e rezaram alto, exorcizando a repressão conhecida como Xangô Rezado Baixo. A Rua do Sol também foi benta durante a passagem dos religiosos.

A atividade, promovida pela Universidade Estadual de Alagoas (Uneal), também contou com um pedido de perdão oficial do governo pelos fatos ocorridos no Quebra de Xangô. O pedido foi assinado pelo governador Teotonio Vilela Filho no final do cortejo, em solenidade na Praça dos Martírios. O chefe do Executivo foi acompanhado pela religiosa Mãe Miriam e pelo reitor da Uneal, Jairo Campos.

Teotonio Vilela ressaltou a necessidade de relembrar o episódio. “Estamos reunidos para quebrar o silêncio oficial que reinou durante décadas sobre os horrores daqueles acontecimentos que marcaram 1912. Naquele tempo, uma onda de violência sem precedentes se abateu sobre os terreiros em Maceió e sobre as pessoas que então praticavam os ritos de origem africana – o Estado não cumpriu, naquele momento, seu papel de assegurador dos direitos elementares do cidadão, nem na garantia do direito à liberdade religiosa”.

O governador também lamentou a morte de Tia Marcelina, principal mãe de santo da época e que, segundo a lenda, teria feito secar a perna do soldado que a atacou. “Em verdade, frente a esses episódios horrorosos, o que secou mesmo foi nossa memória e, junto com ela, nossa própria identidade perdeu parte de seu brilho. Secou parte de nossas culturas populares, com a perda de importantes lideranças e artistas do povo, detentores de práticas e saberes ancestrais impregnados ao nosso imaginário e nas coisas do cotidiano”, disse.

Em seu discurso, o chefe do Executivo destacou a importância das desculpas. “Hoje, nos reunimos para um passar a limpo da história, promovendo a justa compreensão da violência e dos prejuízos causados não só aos religiosos de matriz africana, mas a todo o povo alagoano. A conquista de um futuro digno para Alagoas exige o revisitar do seu passado, na busca de corrigirmos os erros historicamente cometidos e ajustarmos o leme em direção a dias melhores”, expôs.

Novo tempo

Para Mãe Neide, o pedido de perdão e o movimento público marcarão o início de um novo tempo para os praticantes das religiões afro. “É um momento de reconstrução, do nascimento de uma nova história, agora sendo traçada com respeito, dignidade e amor. É o reconhecimento de um débito conosco e isso não só vai mudar nossa realidade como abrir portas. Nossa luta continua, mas agora é apenas uma luta e não mais uma guerra”, afirmou.

Já Mãe Vera, do terreiro Abaçá de Angola, classificou o momento como libertador. “É um dia histórico, em que lembramos os atos de humilhação e o espancamento pelos quais o povo de santo passou. Lembrando o que aconteceu, podemos ter nossa libertação. A sensação de sair às ruas para fazer isso é ótima”, disse ela, que, durante todo o percurso, carregou um estandarte em homenagem à Tia Marcelina.

Segundo o reitor da Uneal, Jairo Campos, esse é o objetivo do projeto Centenário do Quebra - Xangô Rezado Alto. “É uma data emblemática e alguma instituição tinha a obrigação de relembrá-la. Além disso, teremos ainda outras atividades ao longo deste ano, encerrando no dia 8 de dezembro. Estamos lembrando o compromisso com a cidadania, com a defesa dos direitos, e mostrando que sonhos não têm limites”, explicou.

A ação foi encerrada com apresentações culturais e danças. Reunidos na Praça dos Martírios, seguidores das religiões de matriz africana ainda dedicaram uma salva de palmas ao maior mártir do episódio, Tia Marcelina. Antes de chegar ao local, o cortejo parou em frente à Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, ponto de encontro de vários maracatus no início do século XX, e ao Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, onde estão peças salvas do Quebra.

“Estamos todos emocionados. De certo modo, é um reconhecimento e uma valorização das religiões afro. Esse é um movimento de suma importância. O governo tem nos dado uma atenção especial que começou ainda em 2009, quando foi assinado o decreto que instituía o 2 de fevereiro como Dia de Combate à Intolerância, e que está sendo concluído com o dia de hoje. Espero que sirva de exemplo para o Brasil”, observou Pai Célio.

Para Mãe Zefa, de 87 anos, esse será o fim definitivo do terror vivido pelos seguidores do candomblé. “Sofremos muito, fomos desmoralizados. Não podíamos fazer nenhum culto, era tudo escondido, sem cantoria. A polícia ficava na porta e, se escutasse alguma coisa, prendia e espancava. Depois vivemos momentos menos difíceis, mas, agora, acredito que vai ficar ainda melhor”, contou ela, fazendo referência à repressão durante o governo de Silvestre Péricles, conhecida como 2º Quebra de Xangô.

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