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08/08/2012 - 16h25m

Universidade Estadual de Alagoas (Uneal), a Universidade do Brasil de Dentro, para Todos

Universidade Estadual de Alagoas (Uneal), a Universidade do Brasil de Dentro, para Todos

J. Bamberg é um sujeito que hoje mora no Brasil do cerrado, em Goiania. É destes homens que já trilharam muitos matos, os de dentro, os de fora. É um amigo estimado, e dele ouvi uma expressão que em muito resume algumas das crenças que tenho acerca de Educação, embora a fala não tenha sido dita em contextos de debates sobre o tema. Trata-se de “Brasil de Dentro”.

É certo dizer que há brasis dentro disto que tomamos como Brasil. Gostosamente Darcy Ribeiro traçou um panorama disto em O Povo Brasileiro. Esta obra de Darcy, a qual não há como passar desapercebida aos olhos mais formais da intelectualidade acadêmica (e há razões para isto), é um tratado sobre a terra em que vivemos a partir de sua formação enquanto povo, em suas diferenças e atrocidades. Mas o causo aqui é o do Brasil de Dentro de J. Bamberg, companheiro de estudos junto ao programa de pós-doutorado do PACC/UFRJ.

As razões que movem a compreensão para um Brasil de Dentro ainda estão por se definir na fala de Bamberg, nos estudos que realiza. Me deixou curioso, sobre isto que estuda, a fala que realizou em um dos encontros do PACC, ao dizer sobre a formação de uma mentalidade sertaneja a partir do feminino, das viúvas de marido vivo, tendo estas de assumir a família e a gestão do lar. Tal fato não só pertence a tempos imemoriais, como até mesmo a mais contemporâneos no século 20. Em meio a isto, ou antes ou depois, é que ouvi ele dizer de um Brasil de Dentro, que muito é diverso do Brasil Privilegiado. Não é melhor ou pior, apenas diverso, e muito rico culturalmente.

Talvez seja possível mapear este Brasil de Dentro. Eu não tenho conhecimento para tanto. Só me arrisco a dizer é que, dentro do Brasil de Dentro, há uma Universidade de Dentro. E estou falando de Universidade estruturada aos moldes daquelas do Brasil Afora, não estou dizendo de um projeto qualquer ao qual se rotula de universidade. Trata-se da UNEAL, a Universidade Estadual de Alagoas.

Por quatro vezes estive a trabalho, ora como avaliador, ora como convidado participando de ações em torno da UNEAL. Das quatro vezes voltei extasiado (a palavra pode soar exagerada, mas é esta!) com os trabalhos desenvolvidos por esta universidade.

Não, não estou falando de um modelo, de perfeição. Até porque se assim fosse, o que hoje se constitui como frente de trabalho por lá, talvez estivesse acomodado em algum relatório burocrático. Muitos lá trabalham, e trabalham muito. É metáfora ao mesmo tempo em que é verdade, a UNEAL é uma universidade de raízes com e no chão onde está. Numa das vezes, embora a serviço formal, técnico e avaliativo, não tive como me emocionar com a densidade das falas dos estudantes quanto à crença em que aquilo, a universidade, era o agente da transformação em suas vidas. Claro, esta fala parecerá comum em qualquer lugar, portanto, só a percepção em lócus é que poderá revelar o sentido explícito do que isto significa. Aquela velha fala em que se diz “só vendo pra acreditar”, vale muito neste caso.

A UNEAL, dentro do que pude conhecer, tem frentes de trabalho junto a comunidades remanescentes quilombolas, indígenas, formação de professores que já atuavam como docentes no ensino fundamental; está distribuída em vários pontos do estado alagoano, de modo a ter a capacidade, praticamente, de possibilitar acesso à formação a quase toda população no estado. Há mais: Alagoas possui uma diversidade de paisagens, de variedades culturais, de Fé, de histórias, de tipos humanos, e todos estes estão direta ou indiretamente presentes dentro da UNEAL, de modo a constituí-la uma Universidade do Brasil de Dentro, rica em seus pertencimentos e ansiosa por trazer o que se descobre para o rol dos cursos que por lá ainda surgirão. A sede está localizada em Arapiraca, portanto, já dentro do Brasil que não se encontra nos Litorais. É a Universidade do Mar, do Agreste, do Sertão, das Serras e do São Francisco.

Há pouco estive por lá, na realização da 4ª Semana de Letras do Campus de Palmeira dos Índios, ocasião em que pude conhecer a comunidade indígena Aldeia Mata da Cafurna, na qual a UNEAL desenvolve trabalhos. O lugar é belíssimo onde pude registrar trechos e imagens de torés. Em outro momento, em União dos Palmares, conheci a obra em argila de Dona Irinéia e do Senhor Antonio, esposo desta, na comunidade remanescente quilombola do Muquém. Em Santana do Ipanema, o campus da UNEAL tem como nome Escola Superior do Sertão. Não bastassem tais referências, o estado de Alagoas permite que conheçamos sem muito custos, dado ao seu pequeno tamanho territorial, diversas formas de vegetação, relevo, aspectos culturais. É possível conhecer o Velho Chico nos cânions em Delmiro Gouveia, tal como se pode vê-lo, largo a perder de vista, em Penedo, já beirando o Mar.

Gostaria muito que a UNEAL adotasse como ação política e pedagógica a frente de trabalho que a posicionasse como a “Unidiversidade” do Brasil de Dentro, pois potencial humano e intelectual há nela presente em todos os campi, em todos os cursos. Gostaria também que a UNEAL se posicionasse em prol de um jeito de ser universidade, pois o jeito com o qual lidamos no século 21, herança arcaica do Velho Mundo, já não nos serve mais. A mim, que há anos leciono no estado de São Paulo, que me graduei e me pós-graduei em universidades públicas paulistas, que participo de um pós-doutorado numa universidade federal no Rio de Janeiro, fico tímido em observar que ainda temos muito a aprender com o Brasil de Dentro, o qual, no transcorrer de nossa história política e econômica foi posto à margem. O Brasil de Dentro o entendo como o Brasil que se fez muitas vezes sozinho, à parte dos modelos privilegiados pelo o que segmentos nacionais entenderam como melhor. O Brasil de Dentro, diverso do que poderíamos chamar de Brasil de um certo Sudeste ou de um certo Sul, é um aprendizado e um experiência que tem dado certo por se notar pertencente à terra onde se assenta. Sendo regional é, por excelência, global, sem que isto justifique qualquer discurso consolador do que se diz sobre globalização.

Planalto do Piratininga, nas Terras de São Paulo: 7 de agosto de 2012. Elinaldo Meira.

P.S.: Se esta percepção foi possível, tenho de agradecer a um certo punhado de pesquisadores do PACC/UFRJ, que, como amigos, antes de conhecer a UNEAL, já me falavam de um Brasil de Dentro, tal qual como de um Brasil do Morro, na figura do projeto Universidade das Quebradas da UFRJ.

(Texto escrito pelo Prof. Dr Elinaldo Meira - IMESB/SP, depois de sua participação na IV Semana de Letras de Palmeira dos Índios, da qual participou como palestrante)

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